A lisura do novo asfalto da Avenida Gláucio Gil não passa despercebida pro Ian:
— Devia ter trazido o skate — ele reclama conforme caminhamos na direção da praia seguindo a fileira de postes de luz laranja sob as árvores.
— Anda assim mesmo — sugiro sem pensar.
Ian sorri pra mim antes de correr como se estivesse sobre a prancha do skate, imitando com a boca o atrito das rodas contra o chão.
Algo no sorriso dele me perturba.
— Saca só, mandei — ele diz quando pula sobre os paralelepípedos da calçada e finge girar o skate no ar.
— É, mandou — balbucio depois de tomar um gole do Martini direto da garrafa. Ian me vê bebendo e volta pra pedir por vários goles até disparar outra vez sobre o skate imaginário.
Caminhar sem destino sob as estrelas faz parte da minha rotina. É algo que só eu faço; sozinho. Meus amigos fazem festas, vão pras baladas e sempre vão nalgum show juntos. Ninguém sugere de perambular nas ruas do Rio de Janeiro tomando bebida quente.
Mais cedo, antes do Ian sugerir de fazermos exatamente isso, eu não sabia que estava tão faminto por companhia.
Corro para alcançá-lo antes de atravessar o cruzamento deserto com a Rua José Américo de Almeida. Ian aponta pro mar no horizonte escuro atrás do posto de gasolina da orla e passa o braço por cima dos meus ombros pra nos caminhar mais rapidamente para o calçadão.
— Que bom que o frio espantou todo mundo — eu celebro quando começamos nossa peregrinação nas bordas do Posto 10 desabitado.
— Frio? Eu tô quente — ele se vira de repente e cola a testa suada na minha. Percebo o quanto estou excitado só depois que ele me solta. Achei que fosse me beijar.
Ele me pega pelo braço e dispara numa corrida que mal cobre o quilômetro e meio pelo qual bebemos até a Praça do Pontal no Posto 12; onde compramos outra garrafa do mercado na esquina com a Avenida Gilka Machado.
Fumamos um baseado que aperto sem parar de andar pelo quilômetro restante e subimos por uma inclinação rochosa apertada entre o mar e um condomínio de luxo às beiras da areia.
No topo da rocha, Ian abre os braços como se quisesse abraçar a lua que nasceu às nossas costas no caminho pra cá e eu descanso as pernas ao sentar.
— Uau — eu celebro num suspiro.
A lua desenha uma foice amarela no céu escuro por trás da Pedra do Pontal, destacando a silhueta do morro com mais de cem metros sobre o mar à nossa esquerda, e o Morro dos Cabritos ao final da Praia da Macumba à direita.
— Vou mijar — Ian interrompe minha contemplação pra jatear o Oceano Atlântico com os metabólitos do álcool. Quando termina, ele aponta pro p** e manda: — Sacode pra mim.
Mas sobe as calças antes de eu levantar.



