— Saí com um americano uma vez, nova-iorquino. Ele nunca tinha tomado cachaça e eu sou um péssimo exemplo de ser humano: comprei uma 51 e obriguei o coitado a tomar comigo já depois de algumas cervejas. Justamente quando a gente começou a se pegar na suíte onde ele tava hospedado, ele quis fazer xixi. Antes de ir, parou no meio do quarto e disse: “Never break the seal”. Quando voltou e o clima já tinha murchado, ele explicou que depois que você rompe o lacre mijando pela primeira vez, você mija toda hora. Ele tentou segurar ao máximo pra não quebrar o clima mais cedo. Nós ficamos excitados de novo rapidinho, mas essa acabou sendo uma das maiores lições que aprendi na vida.
Ian tá rindo com o ombro no meu e a história nem tem graça. Soa triste: garoto sem pai caçando atenção de figura masculina em troca da b****.
Ainda assim, sinto vontade de me juntar ao Ian e rir também.
— Esse gringo tá no seu blog de aventuras românticas? Não lembro dessa história — ele quer saber.
— Não compartilho todas as minhas aventuras — eu provoco.
O sorriso de dentes pequenos sob o par de turquesas que Ian tem por olhos se aproxima da minha boca pra dizer:
— Aperta outro, vamos caminhar — e corta meu barato ao levantar sem esperar.
Mais um beck no quilômetro com direção ao Morro dos Cabritos pelo calçadão da Praia da Macumba. Sob a iluminação monocromática do retorno circular no final da via, paramos pra decidir o que fazer.
A pele do Ian brilha alaranjada na orla deserta, cintilando de forma sinistra agora que a maresia nos engolfa. A névoa salina traz o aroma de enferrujado tão característico do mar selvagem do Rio de Janeiro e circunda as luzes dos postes feito pompons laranjas. O breu no horizonte é leitoso e a lua crescente se aproximando do zênite cintila feito o sorriso de um demônio escondido na garoa.
Igualzinho ao sorriso do Ian.
Ele me encara como se pudéssemos nos comunicar por telepatia; e talvez possamos: não acho que estou errado em tomar a iniciativa de ultrapassar a mureta que separa o calçadão da areia para levá-lo aonde possamos ficar mais escondidos.
Acelerada contra os nossos rostos, a bruma fica tão espessa que me perco por uma fração de segundo até me situar: tô levando a gente pra escavadeira hidráulica.
Quando Ian nota nosso destino na ponta do deságue do Rio Morto no oceano, pressiona a frente do corpo dele contra as minhas costas como se para me apressar. Eu desacelero pra sentir a excitação dele por mais tempo contra a minha lombar, mas as mãos dele cruzam sobre meu quadril e peito pra me apertar contra o tônus rígido pulsando nas minhas costas.
Ele inspira sonoramente o cheiro do meu cangote e me solta tão rápido quanto agarrou.
A compostura desaparece quando Ian admira a escavadeira amarela ao alcançá-la e, feito uma criança, pula para escalá-la. No topo, pega a garrafa de mim e não me oferece ajuda pra subir.
Gosto de pensar que eu ofereceria.
Deitamos sob o sorriso sádico da lua e continuo tentando frear o tesão me dizendo que nada do que acontecerá a partir daqui é novo.
Pro Ian, talvez. Não pra mim.
A gente vai se beijar, ele vai querer transar, eu vou dar o que ele espera e ele vai sumir.
Eu rolando pra cima dele — que celebra o peso do meu corpo com uma ereção vibrante e lustra minha boca num beijo completo depois de beliscar meus lábios sem usar a língua — significa que já estamos perto do fim.
— Vamos pra minha casa — ele fala, me tirando de cima.
Impossibilitado de negar a ordem pelo medo de voltar sozinho pro meu quarto vazio, sigo Ian escavadeira abaixo.



