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Sumário
Logotipo preto do livro "Sobre garotos que beijam garotos" por Eriq Cobra.

Capítulo 6

Camisa social dobrada em bíceps saradinhos. Peito largo. Cabelo preto. Pálpebras caídas sobre os olhos. Sorriso honesto na foto profissional roubada da galeria de alguma festa carioca.

Dele, uma mensagem para mim: “Quer sair?”. De mim, uma resposta: “Agora”.

Dá pra sentir o cheiro de compromisso saindo dele: três centímetros mais alto, alguns centímetros mais largo, vestindo camisa polo azul-marinho; os pais nem devem saber que é gay.

— Tem quantos anos, Breno? — eu indago assim que nos cumprimentamos na saída “E” do Barra Shopping.

— Vinte e você? — ele devolve.

— Vinte e um — faço o sinal de dois e um com os dedos igual a uma criança aprendendo a contar.

— Pra onde a gente vai? — Breno pergunta, nos caminhando pro carro dele.

— Vamos pro Recreio. Você não é assumido — eu respondo e pontuo assim que dou de cara com o Range Rover que ele destranca com um gesto invisível.

— Por que tá perguntando isso? — Breno ri, curioso e sem graça, ao volante.

— Eu não perguntei — fecho a porta e aperto o cinto. O único jeito de um garoto de vinte anos dirigir um carro de luxo é sendo filho de gente rica e heteronormativa: se fingir que é hétero, pode dirigir o carro do papai.

Breno me beija de surpresa. Não um selinho. Um beijo faminto; desenfreado. A boca me engole, a língua penetra meus lábios, mas a mão segura delicadamente o meu rosto.

Depois do susto, é agradável sentir o dedão roçando minha pele enquanto me adapto ao ritmo dele. A tranquilidade acaba assim que comparo Breno ao Ian, que belisca minha boca como se estivesse cutucando o cadáver de uma presa: se certificando de que está morta antes de comer.

Breno sorri quando se afasta, nos leva pra praia e estaciona ao final do calçadão da Praia da Macumba, basicamente no mesmo lugar onde beijei o Ian pela primeira vez.

Conta dos anos que estudou em Nova York e que pretende morar no Japão um dia.

Fala que a família é tradicional e que nunca sentiu necessidade de contar sobre a sexualidade nos dois anos desde começou a sair com garotos. Dá pra ver: os olhos dele brilham quando diante dos meus.

Diz que é caseiro, que só convive com amigos de infância e não é do tipo social, apesar do celular ter apitado diversas vezes durante os beijos subsequentes.

— Quando vou te ver de novo? — Breno pergunta com a boca vermelha ao ligar o carro.

— Não sei… Vamos nos falando? — é o que consigo responder, apertando o cinto.

— Onde você mora? Te levo em casa — ele oferece quando já estamos em movimento.

— Entra ali — indico o caminho e questiono: — Por que você tava no aplicativo?

Breno suspira. Sinto vontade repentina de chorar porque sei que a resposta dele é igual à minha:

— Solidão. Fico na esperança de encontrar um cara que me surpreenda — ele esclarece.

Honesto, gentil e rico, ele sabe o que quer e não parece preguiçoso pra correr atrás.

Por que então minha primeira atitude depois que me deixa em casa é responder com um “Tô indo” à mensagem de “Tô sozinho, vem pra cá” do Ian?

Eu vou porque também estou.

Quando me convidou, achei que fôssemos transar, mas desde que cheguei ele se manteve afastado falando coisas aleatórias enquanto matamos a vodca.

— Tem dias que acordo carente e passo o dia pensando nisso. Não só em sexo, mas em companhia. É difícil ter alguma coisa hoje em dia. As pessoas esperam demais e se frustram — Ian inspira pela primeira vez depois do desabafo e acende o baseado. Por conta do meu silêncio, ele instiga uma resposta: — Não vai falar nada?

Mas permaneço calado; meus olhos fixos nos dele, que sorri e convida:

— Toma um banho comigo.

Eu vou.

Ele mantém as luzes apagadas sob a ducha quente. O vapor no box imita a garoa na noite do nosso primeiro beijo e se não fosse minha testa quicando contra o vidro conforme ele me dobra e domina até se esvaziar num grunhido, seria romântico até.

Conforme ele se lava, dá um tapa na minha b**** e sai do banheiro com a mesma facilidade que saiu de mim, me pergunto se nos manteve nas sombras porque queria imaginar outra coisa enquanto usava meu corpo, ou porque não queria me dar a oportunidade de imaginar nada além da realidade.

Não há “felizes para sempre” aqui.

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