Baixe o livro completo
Sumário
Logotipo preto do livro "Sobre garotos que beijam garotos" por Eriq Cobra.

Capítulo 11

Ian trouxe maconha e eu paguei com um beijo sem vontade. Não interessa como ele me puxa pela calça, não estou no clima. Acho que perdi meu coração tem tanto tempo que é outra coisa que faz barulho no meu peito: uma bomba-relógio.

Ele já se sente confortável pra explorar o sexo oral em mim, mas não explodo: murcho na boca dele feito um balão velho; o corpo refletindo meu estado brocha de espírito.

— Tá de boa? — Ian pergunta de joelhos.

— Tá — respondo. Mas não tá.

B.

— O que houve? — Ian ajeita a calça quando indaga. Acho que tá puto, apesar do sorriso. É uma máscara. Focinheira de canibal. Hannibal Lecter calçando Vans.

R.

— Sei lá — eu suspiro e me jogo de costas no sofá feito um meteoro. Afundo a almofada e lanço bilhões de ácaros no ar. Vou espirrar daqui a pouco. Extinção da minha paciência.

E.

— Vou ralar — Ian tá segurando a maçaneta da porta. Parece esperar por alguma coisa. Que eu peça pra ficar. Não peço.

N.

— Valeu — é a despedida que formulo com a boca seca. Por dentro, até quero rir. Não dele, nem de mim, mas da ironia da situação.

O.

Gasto um tempão afundado no sofá. Espirro. Penso se minha mãe vai sentir o cheiro da erva quando voltar amanhã. Penso no Breno, em pedir desculpas direito. Me sinto mal.

Na cama, abro o aplicativo de pegação.

Deslizo as fotos pra ver os homens disponíveis nas redondezas: MachoBarra; SaradoZO; AtvRJ; BRN-Barra. Abro o último porque me faz lembrar do Breno. Não dá pra ver o rosto na foto, mas acho que o sorriso é dele: inocente.

Se Breno voltou pro aplicativo e parece bem, não quero correr o risco de magoá-lo. Falo com outra pessoa: o ruivinho malhado que mandou mensagem há dois dias.

Chego na casa dele em vinte minutos.

— Cerveja? — ele pergunta na cozinha apertada do apartamento de sala ampla e varanda estreita. O espaço é bonito, mas parece temporário. Nem vou perguntar, não quero saber.

— Sim, valeu — eu confirmo.

Ele abre uma garrafa e sorri com a barbinha ruiva recém-raspada, contornando as covinhas dos lábios estufados. Parece tão vivo.

Me freio para não enchê-lo de perguntas. Pra um blog sobre aventuras românticas gays, meu novo desconhecido poderia ser um ótimo protagonista.

Só que não tem papo: ele me beija no corredor e me arrasta pro quarto. Largo a cerveja sobre a mesa de cabeceira antes de ele me apertar no colchão.

Mas tem algo errado.

— Tudo bem? — ele pergunta.

— Desculpa. Eu tava saindo com um cara, depois o troquei por outro, e agora só consigo pensar no garoto que larguei — eu explico.

— Fala com ele — o desconhecido encoraja, deixando um selinho na minha boca antes de sentar na cama pra tomar cerveja.

— Ele bloqueou minhas mensagens, mas criou um perfil novo no aplicativo de pegação — eu falo.

— Manda de novo — o desconhecido insiste.

Meus olhos brilham com a permissão. Com medo de ser bloqueado, envio na primeira mensagem um endereço pra encontro imediato caso o perfil BRN-Barra seja mesmo o Breno e digo quem sou.

Agradeço ao meu amigo desconhecido e desço pelo elevador pra esperar por um garoto que talvez nem venha.

Meu padrão de apego evitativo nunca ficou tão evidente.

Ele diminui a velocidade para ter certeza de que sou eu sentado nos degraus. Quando entro no carro, Breno não sai do lugar.

— Você inventou aquele perfil pra falar comigo? — ele quer saber.

— Foi coincidência. Breno, não tô sentindo sua falta porque —

— Para — ele me interrompe pra dizer: — Você acha que já conheceu caras feito eu, mas eu também já conheci caras feito você. Garotos feito você estão sempre atrás de garotos feito você. Se perseguem em círculos pra ter do que reclamarem. Se os caras são carinhosos, são babacas. Se são indisponíveis, são interessantes. Vocês são egoístas que se acham grandes julgadores de caráter e fogem ao primeiro sinal de que alguém pode revogar as desculpas que vocês se dão. É a perseguição que enche o ego, não a conexão. Eu sou um cara de conexão, Enzo. Você transou com um cara justamente quando nossa conexão tava acontecendo. Foi babaquice.

As palavras doem. O olhar do Breno, despejando cacos de vidros nas minhas córneas, me estripa. Sou eu que nem ligo de chorar agora. De caminhar pra casa enquanto o Range Rover desaparece no escuro do bairro.

Passo a beber mais que o comum depois disso. Tento me distrair do meu comportamento mesquinho e camicase com longas caminhadas solitárias. Numa festa, fico sozinho só pela metade: qualquer coisa é melhor que ficar em casa isolado.

Ian não está.

O pessoal que conheço passa feito sombra e pergunta se quero fumar. Acende, puxa, prende, passa. Volto sozinho pra casa vazia e acendo um na sala. Ian sente o cheiro e desce do carro no meu portão com a Amanda inconsciente no colo.

Diz que não tem pra onde ir, que não quer levá-la pra casa dele, e apela dizendo que sou amigo da garota — que eu deveria deixá-la dormir aqui até sair do coma alcoólico.

Arreganho a porta e Ian carrega Amanda até a minha cama. Reclamo e encho um colchão de ar: ela vai dormir no chão. Ian ri da mesma escrotice que ele aplicou em mim uma vez e pede um baseado depois de realocá-la. Digo que não tenho, mas ele sentiu o cheiro, então fumamos sobre a cama.

Ele toca meu rosto como quem pede um beijo. Não dou, mas não nego quando a língua dele toca na minha depois de me ciscar com os lábios.

Ian abaixa a minha calça e eu abaixo a dele. É de desejo divino que este encontro seja o último; para o bem da minha sanidade.

A gente transa, mas não geme. Grunhe, mas não sacode. O sorriso tão casual e sempre presente dele não existe mais.

Acho que assim como eu, Ian sabe que é nossa despedida.

Não precisa mais se esconder.

< Anterior
Próximo >

Leia sem censura: baixe o livro completo em PDF grátis

Baixar
Símbolo branco do autor de livros LGBT de romance gay Eriq Cobra.

Eriq Cobra

© 2014-2026

Voltar ao topo

Símbolo ECMS.